histórias de milagres

Glaucia

       A conversão da Glaucia passa por momentos de muita dor. Fazem alguns anos que os fatos que vou narrar aconteceram, más em meu peito existem cicatrizes que só Jesus irá curar. As marcas foram provocadas pela morte repentina de alguém que eu amava muito, o meu irmão caçula, chamado Jackson. Porém, na mais profunda dor, Deus me mostrou que ainda existe esperança, resgatando para o seu reino, no dia do enterro de meu irmão, a sua noiva, a jovem e meiga Glaucia. Esta prova difícil em minha vida, ocorreu assim:

          O meu irmão mais novo, o Jackson, no alvorecer de sua vida, aos dezenove anos, resolveu abandonar a igreja Testemunhas de Jeová, da qual fazia parte desde os dezesseis anos, para ir “conhecer um pouco dos prazeres do mundo”. Nesta sua busca, como ocorre com todo jovem que entra de cara na vida, Jackson optou por não praticar os princípios morais e religiosos que conhecia e passou a viver à sua maneira, sem obedecer aos conselhos dos pais ou dos irmãos mais velhos. Rapidamente foi envolvido nas garras do inimigo, conhecendo pessoas, lugares e provando coisas que afetavam o seu corpo como morada do Espírito Santo de Deus. 

        A Glaucia era sua companheira inseparável. Até se tornaram noivos. Havia alegria e paz entre o casal. Compartilhavam dos mesmos gostos e tinham um relacionamento estável. Porém, como sabemos que o inimigo não se sente bem com a felicidade das famílias humanas, pois sua intenção é matar, roubar e destruir, vejam o que ele “covardemente” fez com a vida do Jackson.

          Era uma quinta-feira. O telefone toca em minha casa no Rio de Janeiro. Do outro lado da linha, na cidade de Vicente de Carvalho, litoral do estado de São Paulo, minha mãe muito preocupada, pergunta-me se o Jackson estava em minha casa, porque há três dias que estava desaparecido. Meu coração gelou ao ouvir esta notícia. Lhe respondi que ele não tinha vindo para o Rio e que eu estaria indo imediatamente para São Paulo, a fim de ajudar nas buscas.

          Ao chegar em Vicente de Carvalho, meus irmãos e minha mãe me disseram que já tinham procurado por toda a cidade, más sem sucesso. Ninguém tinha uma pista de onde ele pudesse ter ido. Pelo fato de já estar desaparecido a três dias, isto estava deixando todos muito apreensivos, especialmente minha mãe. Diante deste quadro, a solução era orar e foi o que fiz. Entrei em um quarto e orei, pedindo a Deus que enviasse um anjo para me acompanhar até onde estava meu irmão. Depois desta oração, chamei meu outro irmão, chamado Raimundo e saímos para tentarmos encontrar o Jackson.

          A princípio fomos aos hospitais e depois a todas as delegacias de polícia de Vicente de Carvalho. Ao sermos atendidos, passávamos o perfil do Jackson e solicitávamos informações. Ficamos sabendo que não havia registro de internação ou de ocorrência policial envolvendo nosso irmão. Então, depois de muito procurarmos nesta cidade, resolvemos ir até Santos, a cidade vizinha a Vicente de Carvalho. Quando lá chegamos, fomos imediatamente a primeira delegacia que vimos. Eu fiquei no carro e pedi ao Raimundo que se dirigisse ao setor de atendimento a fim de colher dados. O Raimundo entrou na delegacia e estava demorando muito a voltar. Esta demora começou a me preocupar, uma vez que nas anteriores, as informações não levavam mais que cinco minutos. Depois de muito esperar, chega o Raimundo acompanhado de um Investigador de Polícia. Ele veio confirmar comigo as características do nosso irmão. Após isto, recebemos a triste notícia de que havia um jovem com o perfil que falamos, no Instituto Médico Legal da Santa Casa de Santos. Restava-nos tão somente irmos lá para verificar.

         Antes de continuar esta história, eu gostaria de falar sobre um acordo que havia feito com a minha esposa, Francis. Um dia eu falei para ela o seguinte:

– Olha filha, nossas mães já estão bem velhinhas, enquanto nossos irmãos ainda são bem jovens, portanto, é importante que preguemos o evangelho da verdade, primeiramente a elas, antes que descansem no pó da terra, pois teremos muito tempo para o resto da família.

          Nós, seres humanos, nada sabemos dos planos de Deus. Os seus caminhos não são os nossos caminhos e os seus pensamentos não são os nossos pensamentos.

          Digo isto por causa da dura realidade que estava vivendo. Jackson, o jovem a quem eu esperava poder ganhar para Cristo, o caçula de meus irmãos, neste momento, quando cheguei no IML da Santa Casa de Santos, o encontrei inerte, estirado em uma mesa fria, com três tiros nas costas. Acabou-se para mim o tempo que tinha para pregar ao meu irmão. Satanás o tirou da face da Terra. Agora, restava chorar o meu morto e tentar, através deste momento de dor, rogar a Deus que  salvasse algum dos meus parentes de sangue.

        Eu e o Raimundo terminamos nossa busca naquele IML. Voltamos para casa desconsolados e foi duro encontrar forças para contar o fato ao resto da família e, principalmente, para nossa mãe. Esta, quando soube, entrou em estado de choque e meus outros irmãos também ficaram muito sentidos. Aquilo era uma realidade que não queríamos aceitar. Jackson era um menino muito alegre, muito divertido e amigo de todos. Em sua curta existência, só fez mal a ele mesmo. 

         Em tudo eu só enxergava um culpado: Satanás. 

         Clamei a Deus que pudesse resgatar no meio dos meus parentes alguma alma em troca desta que havíamos perdido. Comecei a jejuar e orar fervorosamente por este alvo. Trouxemos o corpo do Jackson do IML de Santos para Vicente de Carvalho. No dia seguinte, sábado, seria o enterro. Todos os nossos familiares foram convidados. Até os que moram em cidades distantes disseram que viriam prestar as últimas homenagens ao Jackson. Da sexta para o sábado, eu resolvi dormir com a minha mãe, a fim de lhe dar um maior apoio nesta hora tão difícil. 

          Então, na madrugada do sábado, sonhei com alguém me pedindo para pregar durante o velório. Eu nunca havia dirigido uma cerimonia fúnebre e, pela manhã, quando cheguei na capela e vi o clima de pesar e dor, falei para Deus em oração:

– “Há Senhor, não há condições de se dirigir uma mensagem neste lugar”. Após isto, fiquei aguardando o momento em que o Jackson seria enterrado. 

        Porém, quando Deus dá uma ordem, Ele utiliza meios simples para que ela seja cumprida. Havia um clima de dor muito forte. Minha mãe e minhas irmãs Jandira e Maria Antonia choravam muito. O resto dos parentes mantinham um silêncio angustiante e profundo. De repente, minha mãe vira-se para mim e pede-me para fazer uma oração pelo Jackson, antes que seja enterrado, pois, explicou ela, que a Jandira não deixou que viesse um padre para fazer os atos fúnebres, pelo fato dela ser “Testemunha de Jeová” e não concordar com os ‘serviços” dos padres nos enterros.

        Este pedido me fez vir a mente o sonho e a ordem que Deus me havia dado:

– “Pregue no enterro”. 

        Pedi que mamãe aguardasse um pouco até que eu fosse em casa pegar uma Bíblia e um hinário. Quando voltei, fiquei na cabeceira do caixão e comecei a cantar. Os outros parentes que também eram evangélicos, se uniram a mim nos cânticos. Pessoas que estavam numa sala ao lado e que também velavam um morto, vieram se juntar a nós. Em poucos minutos, em virtude dos louvores, a tristeza, o choro e a dor foram amenizadas. Quando  abri a palavra de Deus e comecei a pregar sobre a esperança da ressurreição e sobre a nova terra, todos se encheram de alegria. Percebi um brilho diferente no olhar das pessoas e o pranto desapareceu de quase todos. Como não podia deixar de ser, aproveitando aquele momento de enlevo espiritual, mesmo sendo em um velório, não pensei duas vezes e fiz um veemente apelo para que as pessoas entregassem suas vidas a Jesus. Pedi que levantassem as mãos. Várias fizeram este singelo aceno para aceitar a Cristo como salvador pessoal. 

          Não fiquei apenas no apelo, ofereci estudar a palavra de Deus com todos os interessados. 

         No dia seguinte ao enterro do Jackson, fiz uma reunião com todos os meus familiares e nesta reunião decidimos fazer uma semana de estudos bíblicos.  Todos os que aceitaram o apelo no enterro foram convidados.

         Iniciamos estes estudos numa segunda~feira e até ao sábado, fiz uma série de conferências explanando os mais importantes mistérios da palavra de Deus. No primeiro dia havia membros de minha família e também da minha esposa. Nos dias subseqüentes, ficaram apenas os meus parentes. Tínhamos ao todo umas dez pessoas ouvindo meus sermões. Católicos, Testemunhas de Jeová, Assembleianos, Batistas, pessoas do movimento gnóstico, membros da Igreja da Graça e outras mais. São estas as denominações religiosas na qual estão envolvidos todos os meus parentes. 

          Depois de explicar a todos o plano da salvação e qual é a verdadeira igreja de Deus aqui na Terra, fiz apelo para que seguissem comigo a fé adventista. Alguns que ali estavam, se fossem em tempos antigos, certamente me apedrejariam. No entanto, por ser seu irmão de sangue, se limitaram a me criticar com severas palavras e, na sua maioria, rejeitaram o meu clamor para que entregassem suas vidas nas mãos do único Deus que realmente pode salvar. 

          Eu havia pedido a Deus uma alma em troca da vida do Jackson que Satanás tão ardilosamente riscou da face da Terra. Em sonho Ele me pediu que “pregasse no velório” e isto realmente aconteceu. Porém, ao final desta rara oportunidade de levar a mensagem do advento e a verdade da palavra de Deus para os nossos dias a minha família inteira, no sábado, último dia daquela semana de oração, quando concluí com um apelo para que eles aceitassem a fé adventista a fim de serem batizados, apenas a minha mãe, minha irmã Maria Antonia, minha avó e, junto com eles, a noiva do Jackson, a jovem e meiga Glaucia, fizeram esta opção. 

          Foi uma grande surpresa ela ter aceito o convite para o batismo. Tive a curiosidade de lhe perguntar qual dos temas da semana de estudos lhe tocou o coração para a sua decisão. Quando respondeu,  foi que compreendi porque Deus me pediu que pregasse no velório, pois, disse que não foi em nenhum dia da semana de oração e sim durante a pregação no enterro do Jackson. 

          O batismo para todos que aceitaram o apelo naqueles estudos, ficou marcado para a outra semana. Infelizmente, nenhum dos meus familiares ficaram firmes em sua decisão. Apenas a Glaucia selou sua vida com Cristo, sendo recebida como membro da Igreja Aventista do Sétimo Dia de Vicente de Carvalho. 

         E, assim, cumpriu-se a vontade de Deus e que sua majestade perdure pelos séculos dos séculos. Amém.